A periodontite é a principal causa de perda de dentes em adultos — mais do que a cárie. E é uma doença silenciosa: destrói o osso que segura os dentes durante anos sem doer, até que os dentes começam a abanar e já vai tarde.
O tratamento de primeira linha chama-se raspagem e alisamento radicular, e é aquilo que se faz antes de sequer se considerar cirurgia. Este artigo explica o que envolve, na prática.
O que a doença faz
Numa gengiva saudável, o sulco entre o dente e a gengiva tem 1 a 3 milímetros. Quando a placa bacteriana se acumula e mineraliza abaixo da gengiva, o corpo responde com inflamação — e essa inflamação, mantida ao longo do tempo, destrói o osso e as fibras que ligam o dente ao osso.
O sulco aprofunda-se e transforma-se numa bolsa periodontal. E aqui começa o ciclo: quanto mais funda a bolsa, menos a escova a alcança; quanto menos limpa, mais bactérias; quanto mais bactérias, mais funda fica.
A partir de 4 milímetros, nenhuma escovagem em casa resolve. É preciso instrumentar.
O diagnóstico vem antes do tratamento
Não se trata periodontite sem medir. O diagnóstico correto inclui:
- Sondagem periodontal — mede-se a profundidade da bolsa em seis pontos por dente. É este mapa que define o tratamento e serve de referência para avaliar o resultado depois.
- Radiografias — mostram quanto osso já se perdeu e onde.
- Registo de sangramento — indicador de inflamação ativa.
- Fatores de risco — tabaco, diabetes, história familiar, medicação.
Sem este registo inicial não há forma de saber, seis semanas depois, se o tratamento resultou.
O que se faz na sessão
O procedimento tem duas componentes que o nome descreve:
Raspagem — remoção do tártaro e do biofilme aderido à superfície da raiz, abaixo da gengiva, com instrumentos ultrassónicos e manuais (curetas).
Alisamento radicular — regularização da superfície da raiz, para remover a camada contaminada e deixar uma superfície lisa onde as bactérias voltem a aderir com mais dificuldade e onde a gengiva possa readerir.
Faz-se por quadrantes ou por metades da boca, com anestesia local. Cada sessão dura tipicamente entre 45 e 60 minutos — é bastante mais demorado do que uma destartarização, porque se trabalha às cegas dentro da bolsa, superfície a superfície.
Os dias seguintes
O que é normal:
- gengivas doridas durante alguns dias
- sensibilidade ao frio, por vezes marcada — as raízes ficam expostas onde antes havia tártaro
- ligeiro sangramento nas primeiras escovagens
- sensação de que os dentes ficaram mais compridos ou mais separados
Este último ponto merece explicação, porque assusta e leva pessoas a pensar que o tratamento correu mal. A gengiva estava inchada e o tártaro preenchia os espaços. Ao desinflamar e ao remover o tártaro, a gengiva retrai para a sua posição real e revela a perda que a doença já tinha causado. O tratamento não criou a retração — tornou-a visível.
O que não é normal: dor intensa e crescente, inchaço, febre, ou pus.
A reavaliação às 6-8 semanas
Passadas seis a oito semanas, volta-se a sondar. É aqui que se sabe se resultou.
- Bolsas que reduziram para 3 mm ou menos e sem sangramento — doença controlada, passa a manutenção.
- Bolsas que persistem acima de 5 mm com sangramento — há zonas que não responderam. Pode justificar-se reinstrumentar, ou considerar cirurgia periodontal para aceder a zonas que os instrumentos não alcançaram.
- Bolsas profundas em dentes com muita perda óssea — discute-se prognóstico dente a dente, honestamente. Há dentes que não vale a pena manter, e é melhor sabê-lo cedo do que investir num que se vai perder.
A parte que decide o resultado
A raspagem trava a doença. A manutenção é o que a mantém travada.
Depois do tratamento ativo entra-se num programa de manutenção periodontal de 3 em 3 ou 4 em 4 meses, para o resto da vida. Não é uma limpeza de rotina — é sondagem, instrumentação das zonas que voltaram a ter depósito e reforço de higiene.
Os estudos de longo prazo são inequívocos: quem cumpre manutenção mantém os dentes; quem abandona recidiva. É a variável que mais pesa no resultado a dez anos, mais do que a técnica usada no tratamento inicial.
Dois fatores merecem atenção especial:
- Tabaco — reduz o fluxo sanguíneo gengival, mascara o sangramento e piora a resposta ao tratamento. Deixar de fumar melhora o prognóstico mais do que qualquer refinamento técnico.
- Diabetes — a relação é bidirecional. Controlar a glicemia melhora a resposta periodontal, e tratar a periodontite ajuda o controlo glicémico.
Quando consultar
Não espere que um dente abane. Justificam avaliação periodontal:
- gengivas que sangram ao escovar ou ao usar fio
- mau hálito persistente
- gengivas retraídas, dentes que parecem mais compridos
- sensibilidade nas raízes expostas
- qualquer mobilidade dentária
- dentes que mudaram de posição ou se separaram
Se tem diabetes, é fumador, ou tem história familiar de perda precoce de dentes, o rastreio faz sentido mesmo sem sintomas.
Veja a nossa página de periodontologia ou o artigo sobre os estágios da periodontite e o que acontece se não tratar. A relação com a saúde geral está explicada em doença periodontal e doenças cardíacas.
Este tema tratado na clínica
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