Saúde Oral 4 Agosto 2026

Dentes do Siso: Quando é Preciso Extrair (e Quando Não)

Um siso sem sintomas e sem doença não precisa necessariamente de sair. Saiba distinguir os casos com indicação clara de extração dos que só precisam de vigilância.

Dentes do Siso: Quando é Preciso Extrair (e Quando Não)

Os dentes do siso — os terceiros molares — são os últimos a nascer, normalmente entre os 17 e os 25 anos. São também os que mais frequentemente causam problemas, porque muitas vezes já não há espaço na arcada para eles.

Isso não significa que todos tenham de sair. A ideia de que "o siso é para tirar" continua muito enraizada, mas a decisão deve ser sempre caso a caso, com base no que a radiografia mostra e nos sintomas que existem — ou não existem.

Porque é que os sisos dão tantos problemas

A mandíbula humana foi encolhendo ao longo da evolução, mas o número de dentes manteve-se. O resultado é que, em muitas pessoas, os sisos simplesmente não têm espaço para se posicionar corretamente.

Quando isso acontece, o siso pode ficar incluso (totalmente coberto por osso e gengiva), semi-incluso (parcialmente irrompido) ou irromper numa posição inclinada. É sobretudo o siso semi-incluso que causa problemas: a gengiva forma uma espécie de bolsa por cima do dente, onde se acumulam bactérias e restos de comida que a escova não consegue alcançar.

Quando há indicação clara para extrair

Estas são as situações em que a extração é habitualmente recomendada:

  • Pericoronite recorrente — infecção da gengiva que cobre parcialmente o siso, com dor, inchaço e por vezes dificuldade em abrir a boca. Um episódio isolado trata-se; episódios repetidos justificam extração.
  • Cárie no siso que não é restaurável, ou de acesso impossível para tratar de forma previsível.
  • Cárie na face de trás do segundo molar causada pela posição do siso. Este é um dos motivos mais sérios: perde-se um dente útil por causa de um dente que não faz falta.
  • Reabsorção da raiz do molar vizinho pela pressão do siso.
  • Quisto ou lesão associada ao folículo do siso incluso, visível na radiografia.
  • Doença periodontal localizada atrás do segundo molar, mantida pela posição do siso.
  • Antes de certos tratamentos ortodônticos ou cirurgias, quando o plano de tratamento o exige.

Quando é razoável não extrair

Um siso completamente irrompido, em boa posição, que se consegue escovar e que não tem cárie nem inflamação, é um dente como os outros — e pode até vir a ser útil como pilar de uma prótese no futuro.

Um siso totalmente incluso em osso, sem qualquer sinal de doença e sem sintomas, também não tem indicação automática para sair. A orientação do NICE, no Reino Unido, é clara neste ponto desde 2000: não extrair terceiros molares inclusos livres de doença. A conduta correta é vigilância — observação clínica e radiográfica periódica.

Há também casos em que o risco da cirurgia pesa mais do que o benefício: raízes muito próximas do nervo alveolar inferior, doentes com condições médicas que aumentam o risco cirúrgico, ou idades avançadas sem sintomas.

Como é a cirurgia

Começa sempre por uma avaliação com radiografia. Numa ortopantomografia vê-se a posição do dente, a forma das raízes e a relação com o nervo. Quando essa relação parece próxima, o TAC 3D dá a informação em três dimensões e permite planear com muito mais segurança — é uma das situações em que este exame muda mesmo a decisão cirúrgica.

A extração é feita com anestesia local. Consoante a posição do dente, pode ser necessário descolar a gengiva, remover uma pequena porção de osso e dividir o dente em fragmentos para o retirar sem forçar. Termina com sutura. A consulta dura tipicamente entre 20 e 45 minutos.

Para casos mais complexos, vários sisos na mesma sessão, ou pacientes com ansiedade significativa, existe a possibilidade de realizar a cirurgia em bloco operatório sob sedação ou anestesia geral.

A recuperação, dia a dia

  • Primeiras 24 horas — aplicar gelo por fora, de forma intermitente. Não bochechar, não cuspir com força, não usar palhinha e não fumar: tudo isto pode deslocar o coágulo. Comer alimentos moles e frios.
  • Dias 2 e 3 — é o pico do inchaço e da dificuldade em abrir a boca. É desconfortável, mas normal. A partir das 24 horas podem iniciar-se bochechos suaves com água morna e sal.
  • Dias 4 a 7 — melhoria progressiva. A dor deve estar claramente a diminuir. Retomar a escovagem cuidadosa da zona.
  • 7 a 10 dias — remoção dos pontos, quando não são reabsorvíveis.

Sinais que justificam contacto imediato: dor que aumenta a partir do terceiro dia, febre, pus, hemorragia que não para com compressão, ou alteração persistente da sensibilidade do lábio ou da língua.

Os riscos, ditos com clareza

Toda a cirurgia tem riscos, e um consentimento honesto explica-os antes:

  • Alveolite seca — a complicação mais comum, dolorosa mas tratável.
  • Infecção do local cirúrgico.
  • Alteração de sensibilidade do lábio inferior, queixo ou língua, por proximidade ao nervo alveolar inferior ou lingual. É quase sempre temporária, mas o risco de ser prolongada existe e é maior em sisos inferiores com raízes muito próximas do canal — outra razão para o TAC 3D quando há dúvida.
  • Comunicação com o seio maxilar, nos sisos superiores.

É precisamente por estes riscos existirem que não faz sentido operar um dente saudável sem indicação.

Quando consultar

Se tem dor, inchaço ou infecções repetidas na zona de trás da boca, deve ser avaliado — a pericoronite tende a repetir-se e agrava a cada episódio. Se nunca fez uma radiografia que mostre os sisos, vale a pena fazê-la para saber em que posição estão, mesmo que não doam.

Na Clínica Dr. António Bexiga fazemos ortopantomografia digital nas duas clínicas e TAC 3D Sirona em Lisboa, com interpretação feita pelo médico que vai tratar. A decisão de extrair, ou de vigiar, é apresentada com as razões à frente — e se um dente não precisa de sair, dizemo-lo.

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